Áreas onde seriam construídas escolas são invadidas no Complexo da Maré


O Complexo da Maré não para de crescer. Na Linha Vermelha, do trecho entre o Morro do Timbau e a Favela Salsa e Merengue, pode ser constatado o aumento vertical dos imóveis, que já ultrapassam, em muito, as barreiras acústicas instaladas pela prefeitura. Mas é na altura da Ponte do Saber, de onde se vê uma parte da Favela Salsa e Merengue, que o problema se mostra mais acentuado. O terreno em frente à Escola Municipal Marielle Franco e ao lado de outras unidades de educação, que ganharam nomes de medalhistas olímpicos e paralímpicos nas Olimpíadas de 2016, pertencia ao Campus Educacional Maré II. Ele foi ocupado por construções irregulares a mando de traficantes de drogas.

Naquele espaço, próximo ao campus inaugurado no mesmo ano dos Jogos pelo então prefeito Eduardo Paes, seriam construídos colégios do projeto Escolas do Amanhã, o que não aconteceu por causa do tráfico de drogas. O programa, segundo a prefeitura, foi suspenso. Comparando imagens feitas pelo GLOBO na última terça-feira com a do Google Maps feita em maio de 2017 dá para ter uma noção mais evidente do tamanho da invasão.

A invasão começou a acontecer em março do ano passado, quando bandidos "deram permissão" a moradores de reconstruírem casas. Muitos deles tiveram seus imóveis desapropriados pela prefeitura para a construção do campus. A derrubada dos imóveis aconteceu em 2014, ano em que o Exército ocupou a comunidade visando à implantação de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), o que não foi à frente. Hoje, até mesmo um terreno ao lado do 22º BPM (Maré) e do Campus Educacional Maré I virou loteamento com casas que já têm quatro pavimentos e ultrapassam a barreira acústica instalada pela prefeitura.

– A Salsa e Merengue é o território ocupado por traficantes mais perigoso da Maré. Ali são feitos treinamentos de tiro com jovens traficantes. É um lugar impossível! E a construção das escolas já provocou até morte. Esse assunto é por demais espinhoso, ninguém vai querer falar nada. Mas o pior não é isso, não. Do lado do batalhão há outro loteamento. Esses dois lotamentos só comprovam que o Estado não tem controle algum sobre esse território. Aqui quem manda é o tráfico – contou um morador, que não quis ser identificado com medo de represálias.

A morte a que ele se referiu seria a do presidente da Associação de Moradores do Timbau, Osmar Paiva Camelo, no dia 15 de setembro de 2014. Osmar era um entusiasta da pacificação da comunidade e ajudou as forças de segurança no processo de desapropriação dos imóveis para a construção das Escolas do Amanhã. Foi morto com sete tiros dentro da sede da associação por um motociclista que perguntou quem era Paiva.

Osmar Paiva era policial militar aposentado, tinha 54 anos, e havia desistido de um sonho – mudar-se para a Região dos Lagos após a aposentadoria – por apostar na pacificação da comunidade onde morava. Em sua homenagem, a prefeitura deu a uma das escolas do campus o nome de Escola Municipal Primário Osmar Paiva Camelo.

A maioria das construções em alvenaria está desocupada. Há pelo menos 15 imóveis no terreno, alguns com até três pavimentos. O antropólogo Robson Rodrigues, coronel da reserva da Polícia Militar, observou que é possível que traficantes tenham dado "permissão" para a ocupação ou eles próprios fizeram os imóveis para obter lucro num futuro próximo.

Ocupar um espaço destinado a escolas é, na visão de Rodrigues, uma tentativa de demonstração de poder e uma inversão de valores, haja vista a importância da educação em comunidades carentes.

– Estamos falando de escolas, fator preponderante para a modificação, para a cidadania, para uma sociedade mais justa. Onde não existe dominação da ordem pública, há esse desgaste. Mas a Maré vive uma situação muito complicada. Era previsto que fosse contemplada com a pacificação, mas houve aquela derrocada. O Osmar (presidente da Associação do Timbau) era notadamente um entusiasta da pacificação e se aproximava dos policiais. Até por que era um policial. É lamentável não termos oficialmente a elucidação desse crime (a morte de Osmar). Na época, era uma questão preponderante a elucidação dentro da política de pacificação – comentou o antropólogo.

Por meio de nota, a prefeitura informou que o programa Escolas do Amanhã foi suspenso e que a ocupação de territórios pelo tráfico é atribuição da polícia.

"O programa Escolas do Amanhã foi suspenso, já que a prioridade da Secretaria de Educação é recuperar e manter em bom estado as 1.539 unidades da rede municipal. As escolas situadas no Complexo da Maré estão em período de férias e seguirão o calendário letivo adotado para toda a rede.Questões relacionadas a territórios controlados pelo tráfico competem às forças policiais do Governo do Estado", diz a nota da prefeitura.

Fonte: Extra Online

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